Conferência de Imprensa

DECLARAÇÃO SOBRE A VISITA DO PRESIDENTE DOS EUA A CUBA

 

A Associação de Amizade Portugal Cuba considera que a visita do Presidente Barack Obama à República de Cuba constituiu um acontecimento de grande significado político para Cuba e para os EUA, inédito na história de Cuba independente e soberana e um sinal de sentido positivo nas relações entre os dois países e povos.

Mas a importância desta visita extravasa as fronteiras destes dois países. Ela representa um sinal de abertura ao diálogo, tão mais necessário e importante quando o Mundo é hoje marcado por inúmeros conflitos e tragédias, e por políticas de relações internacionais assentes no domínio, na ingerência, no militarismo e na guerra, politicas essas prosseguidas e instigadas pela acção do governo dos EUA.

 

 

Esta visita não materializa, como alguns tentaram fazer crer, uma inaudita abertura de Cuba ao diálogo com os EUA ou uma claudicação face aos seus objectivos. Pelo contrário, o objectivo, disponibilidade e vontade de normalização de relações sempre foi afirmado pelas autoridades cubanas. Trata-se em bom rigor de uma alteração, sim, mas na postura dos EUA que há mais de meio século optaram por uma ininterrupta postura de confrontação directa e guerra contra Cuba, postura que agora reconhecem não ter surtido os objectivos que desejaram os inimigos de Cuba.

Como as autoridades cubanas afirmaram ainda antes da realização da visita, esta foi realizada num ambiente de respeito mútuo, e de acordo com o principio basilar que Cuba sempre defendeu: um diálogo de igual para igual. Este é um importante facto político, que não ignora, pelo contrário, tem presente, as grandes diferenças e discordâncias entre os dois Estados bem como os elementos de ingerência, de “colonização ideológica” e de tentativa de divisão do povo cubano que não estiveram ausentes dos discursos e acções do Presidente Barack Obama durante a sua Estadia em Cuba.

Sendo correcto afirmar que a visita de Barack Obama a Cuba não alterou significativamente a política oficial dos EUA face a Cuba, abre, no entanto, caminhos que apontam à desejável normalização das relações diplomáticas entre os dois estados, situação que será vantajosa para ambos os povos desde que respeitada a Carta das Nações Unidas, o mútuo interesse, a não ingerência nos assuntos internos de cada nação e o direito a cada povo decidir sobre o seu próprio caminho livre de pressões e interferências externas.

Num contexto histórico de mais de meio século de resistência a inúmeras manobras, boicotes, atentados, campanhas difamatórias e guerra económica dos sucessivos governos dos EUA contra Cuba, a deslocação de um Presidente dos EUA a Cuba socialista é uma vitória do povo cubano e da sua revolução, que deve ser registada.

Uma vitória assente na persistência e dignidade de um Povo que apesar de mais de meio século de um hediondo Bloqueio, económico, comercial e financeiro imposto pelos EUA soube assegurar direitos fundamentais que são negados aos trabalhadores e aos povos de países ricos e desenvolvidos como é exemplo os próprios Estados Unidos da América e que se lança agora numa exigente tarefa de aperfeiçoamento do seu sistema socialista.

A visita de Barack Obama abriu portas e traçou caminhos. Mas esses caminhos, e o objectivo final da normalização de relações, só poderá ser concretizado na sua essência e objectivos se verificadas duas condições essenciais:

A primeira é a que qualquer relação futura entre E.U.A. e Cuba tem de ser construída na base, não do esquecimento do passado como referiu Obama, mas sim na análise séria e crítica desse passado para que, com velhas ou novas roupagens, não se prolonguem ou intensifiquem políticas de ingerência e pressão tendentes a provocar pressão e desestabilização interna em Cuba.  Ou seja, a desejável relação entre os dois Estados, deve, na opinião da AAPC, ser construída na base do respeito pela independência de Cuba, pelo seu sistema socio-económico e político, e pela soberania do Povo Cubano.

A segunda condição, é que para percorrer esse caminho é obrigatório remover alguns dos principais obstáculos que se lhe colocam: O levantamento efectivo do Bloqueio económico contra Cuba bem como de toda a legislação norte-americana conexa; o fim da ocupação da base Militar de Guantanamo e a devolução ao Povo Cubano daquele território ilegalmente ocupado; a não interferência, por via das relações comerciais e económicas, nas decisões estratégicas da economia cubana; e o fim das manobras de ingerência externa contra Cuba, nomeadamente o financiamento ilegal à luz do direito internacional a grupos ou organizações que têm como único fim a desestabilização interna.

Não é credível falar de relações diplomáticas assentes nos princípios definidos na Carta das Nações Unidas quando o Congresso norte-americano consagra mais de 100 milhões de dólares anuais para financiar grupos, organizações e pessoas que conspiram contra o Estado e o Povo Cubano e desenvolvem contra este calúnias vergonhosas.

Sobre este último aspecto a AAPC denuncia a postura destes grupos e pessoas que perante a visita de Barack Obama a Cuba, desenvolveram campanhas, infelizmente fortemente ampliadas pela comunicação social, que visaram objectivamente boicotar os objectivos da visita e defender a continuação do bloqueio a Cuba bem como a lógica de confrontação entre os dois Estados.

Mas a AAPC regozija-se pelo facto de tais campanhas não terem surtido o efeito que os seus promotores desejaram. O que o Mundo pôde ver através da visita de Obama e que já havia sido salientado aquando da presença em Cuba dos mais altos representantes das Igrejas Católica e Ortodoxa foram os avanços e conquistas da revolução cubana em variados domínios, nomeadamente nas áreas dos direitos laborais e sociais, da saúde, educação e cultura, e a inexistência de graves problemas sociais como a fome ou a pobreza extrema. Conquistas que o próprio Presidente dos Estados Unidos reconheceu no seu discurso após o Encontro com o Presidente Raul Castro.

A Associação de Amizade Portugal Cuba não tem ilusões quanto ao real alcance desta visita e aos obstáculos e dificuldades que se colocam ao desejado caminho da normalização das relações entre os dois estados. Não obstante os sinais positivos desta visita e as reconhecidas capacidades de comunicação do Presidente Obama este não deixou de, nas suas várias intervenções, deixar transparecer o objectivo dos EUA de derrotar a Revolução Cubana, o sistema socio-económico e político constitucionalmente consagrado e as suas conquistas. Aliás, a AAPC relembra que o mesmo governo que agora visitou Cuba é aquele que está por detrás de manobras de desestabilização em vários países da América Latina como a Venezuela, a Bolívia, o Equador ou o Brasil, e é o mesmo que insiste na militarização do sub-continente latino-americano.

A AAPC reafirma, como sempre o fez, que as relações de qualquer Estado, incluindo o português, com Cuba, têm de ser baseadas no estrito respeito pelas opções do povo cubano e desenvolvidas no quadro de igualdade de direitos, como o direito internacional consagra.

Se a visita de Barack Obama a Cuba representou um passo nas relações entre os dois países, ela também coloca novos desafios para o futuro. Neste novo quadro a Associação de Amizade Portugal Cuba entende que a solidariedade para com o Povo Cubano e a sua Revolução é mais necessária do que nunca, perante as novas e exigentes realidades. No imediato a Associação de Amizade Portugal Cuba irá centrar a sua atenção na luta pelo levantamento do Bloqueio a Cuba. Para tal irá lançar um movimento de âmbito nacional, que congregará organizações e personalidade e que assumirá a forma de uma Comissão Nacional contra o Bloqueio a Cuba.

A visita de Barack Obama a Cuba é um sinal de esperança para todos aqueles que lutam pela justiça, a paz e a cooperação e constitui uma importante vitória de Cuba na luta das ideias e nestes longos anos de combate. Esta visita, as sucessivas deslocações de Chefes de Estado e de Governo a Cuba, o Encontro Histórico entre os lideres da igreja católica e ortodoxa em Havana, o acordo entre a União Europeia e Cuba para o caminho do diálogo e cooperação, são factos que comprovam que Cuba não só resistiu às inúmeras tentativas de destruir a sua Revolução, como é hoje um Estado respeitado em todo o Mundo, profundamente solidário, um exemplo na prossecução de uma política externa de paz, cooperação e apoio solidário aos povos com maiores dificuldades e de unidade dos povos da américa latina.

A forma como Cuba, conseguiu romper bloqueios e ganhar espaço político e diplomático no concerto das nações é demonstrativa que por via da coerência, da persistência, da justiça e da solidariedade é possível resistir e vergar os inimigos, por mais poderosos que eles sejam.